domingo, 1 de maio de 2016

O Frio do Espaço

    O invisível abraço da escuridão consumia cada centímetro do Compartimento de Cargas, e as únicas coisas que irrompiam tal silêncio eram a forte respiração da Comandante Alexys e o intenso bater de seu coração. Este parecia temer tanto o escuro que precisava preenchê-lo, nem que minimamente, de um pouco de barulho e de vida. A temperatura dentro do compartimento reduzia-se a um passo lento, mas constante. Com a ruptura do casco e a queda brusca de energia, o frio tinha espaço para contaminar todos os ambientes, e este, junto das trevas, eram entidades torturantes e impiedosas. Ninguém imaginava que a viagem seria interrompida tão bruscamente, e a própria Comandante, veterana de diversas expedições, nunca havia atravessado uma situação dessas.

    Os termômetros já ultrapassavam a linha dos zero graus celsius, mas a esperança de Alexys já havia atravessado a linha mínima há muito tempo. Tentava lembrar-se dos dias felizes e das aventuras do passado, mas a mão gélida do espaço já havia atravessado todos os corredores para avisa-la que sua morte seria inevitável, e pensar nisso só lhe traria mais angústia. Seu corpo tremia bruscamente, não apenas pelo frio, mas pelo terror da solidão, pois seu corpo e de seus companheiros ruminariam a galáxia por décadas, até que alguma outra nave os encontrasse. E SE encontrasse, assim pensou ela. Sua visão aos poucos se tornava turva, e suas mãos não aceitavam mais os comandos de sua dona, ficando paralisadas, encolhidas e assustadas.

    Era o fim, pensou a Comandante, sua tripulação estava morta, sua nave comprometida, e Ele, sim, Ele poderia estar em qualquer lugar. Talvez estivesse a observando nesse momento. Teve sua chance de retirar minha vida, mas não o fez, pensou ela. Não conseguia entender os motivos para tal. Estaria Ele se divertindo com o seu sofrimento? Com a sua angústia? Pensar nisso, por algum motivo, esquenta seu corpo e fez este lembrar-se de que, naquele momento, a morte ainda não havia chegado.

    Mas logo as memórias dos gritos de cada um de seus companheiros de tripulação ecoavam em sua mente. As cenas que precediam a morte que cada um deles atravessou preenchiam sua visão. Os clamores de piedade daqueles já não se mantiam presos dentro dela, e ecoavam pelo escuridão, saindo do compartimento onde ela se encontrava e se alastrando por toda a nave. Estaria enlouquecendo? Talvez sim, talvez não. Seus olhos e seus ouvidos pareciam já não ser mais seus, e isso a trazia ainda mais sofrimento.

    Quando seus olhos já não enxergavam nada além de dor e seu corpo rejeitava aceitar qualquer um de seus desejos, uma melodia relaxante, mas baixa, irrompe a agonizante sinfônia de vozes mortas, e, pela primeira vez em horas, Alexys pode sentir-se bem e calma. Uma luz fraca, mas ainda sim uma luz, caminhava em sua direção. Um intenso calor toma conta do ambiente, e uma voz doce e serena chama a Comandante pelo seu nome. "Alexys, querida, está na hora de partir. Já levei seus companheiros para minha nave. Agora é sua vez. Não precisa mais resistir. Estamos indo para Casa", disse a voz. Era apenas isso que ela precisava ouvir.

    A garota deixa cair sua nave de brinquedo sobre um pequeno monte de neve ao seu lado. A nave, pequena e improvisada, começa a rolar para longe dela, até tocar o corpo de seu Segundo-em-Comando Jones, que já havia partido há um tempo. Sua tripulação estava toda ao seu redor. A Cientista Marrie, que sempre tinha algo inteligente para dizer a todos, o Cosmólogo Marcus, que conhecia o espaço e as ruas da Capital como ninguém, e Jones, seu mais próximo e querido amigo, que junto dela participou de inúmeras expedições. Infelizmente, essa seria a última delas.

    O silêncio permanecia nas ruas da Capital. Ele já havia tomado seu caminho, pois Ele nunca para, Ele nunca descansa, pois o Gélido Toque do Abandono há sempre de achar uma nova tripulação para obliterar, pois Ele era, e é, o mais poderoso e impiedoso ser do espaço, e da Terra.